letras

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METAMORFOSE A

Feito homem
Era sempre e tudo o mesmo
Agora já não mais
Como planta
Estou no inverno do tempo
E recebo a chuva que cai
Que apodrece as folhas mortas
Mas que faz subir a seiva para as vivas

Então sempre broto
Novas porções em mim afloram
Vicejam pelo meu corpo vegetal
Palmeira ainda tenra e esguia
Plantada pela carícia da tua mão
Sou filha da mãe da água
Sou ar e sou terra, sou fogo e mulher
Sou homem também

VÍCIO ANTIGO

Escobar está em Acapulco
Não foi baleado no telhado
Fez a barba e perdeu peso
Comprou na moeda o seu disfarce

Escobar está em Acapulco
Vai ao baile do balneário
Uma carabina da Lapônia
Lhe abre os salões do banquete

LAMBANÇA*

Eu não sabia
Assim como os bois,
As galinhas, os coelhos e porcos
As pessoas também morrem
E vão pro buraco da panela da terra
Vão pros dentes dos vermes
Para um suco natural de boas maneiras

BOI DESCANÇO

Vovô, me dá um boi
Ou um bezerro de presente
Vovô, me dá um boi
Ou um bezerro de presente

Quero o filho da vaca Mimosa
Serve o filho da vaca Mimosa

Vovô, me dê um boi
Ou um bezerro de presente
Ô vô, me dê um boi
Ou um bezerro de presente

Que eu dou água e levo pro pasto
Eu dou água e levo ao pasto

Com ele quero comprar casa, roupa e fogão
Comprar casa, comprar roupa e fogão
Vô, joga um bicho desse na minha mão

DOIDEIRA

Estou num momento muito legal
“Tô ligadão!”
Mas a seriedade vem
Ou não vem
Vem não
Quem vem é a serenidade
Com toda a sua tran-qui-li-da-de
Só agora eu entendi como estava o negâo
Pois é … ! É tão bom …

FALSOS DEUSES

Dizem que são mistérios da fé
E mostram milagres duvidosos
São fenômenos sobrenaturais
Confundindo todas as religiões
Pregações falsas em cada esquina
Pra congregar cada vez mais fiéis
Gritos alucinantes prometendo cura
Quais são suas verdadeiras intenções?
Querem criar uma outra doutrina?
Mais Cristos falsos lotando os salões
Mais Cristos falsos nas televisões
Mais Cristos falsos em nossos corações
Pastores berrando de olhos fechados
Avessando a Bíblia pra multidão
Cultos milagrosos que viram delírio
Ofensas e ofertas, credos e sermões
As igrejas estão lotada de fanáticos
Gananciosos à procura do poder
Querendo um pouco mais do seu dinheiro
Vendendo a prestações a sua salvação
Todos estão vestidos de ovelhas
E dentro deles são lobos famintos
Capítulos e versículos em zero
Cruzeiros e dólares aos milhões
A vida eterna começa aqui na terra
Com você sendo amigo ou irmão
Sem cometer nenhuma violência
Inclusive contra você mesmo
Jogue os seus pecados na lata do lixo
Comungue um pouco do amor com o mundo
Com Nosso Senhor Jesus Cristo
Amém! Amém! Amém! Amém!

WAZIU

Talvez um dia
Quando você estiver sozinha
E te der uma vontade de ir ao quintal
Eu te peço pra sentar um pouco entre as plantas
Sentir o vento mexendo nos cachos das árvores que eu plantei
Então aí é que vai perceber quem fui eu pra você
Vai sentir a falta da minha mão nos teus cabelos
Vai sofrer um pouco com a solidão e chorar

Talvez um dia
Quando você estiver sozinha
E ouvir essa nossa música minha
Se ainda lhe restar alguma saudade
Se reconforte a curtir o sol da manhã
Abra as janelas da sua casa tão linda
Deixando entrar o perfume e a brisa do mar
E se lembrar de mim apenas por um instante
Pense no que eu fiz de bom para nós dois

Aí então é que vai perceber quem fui eu pra você
Quando você estiver realmente sozinha um dia

CHOTE DA XUVA

Chuva, eu quero te beber
Eu quero te filtrar
Te fazer crescer

Pra encher de chuva o lago da prisão
Na qual se escondeu um coração do meu
Doeu, mas…

Chuva, eu quero em ti banhar
E em ti também sorver
Cada gota da onda molecular

Ô chuva, me dá sua atenção
Me diz qual a razão
Pra uma moça não se molhar

Vem pra chuva
Solte seu cabelo
Estirado inteiro
Pro vento assanhar

SANFONA, SUOR E SERTÃO

No meu forró
Tudo é sorriso
Minha sanfona
Fazendo dançar
E os meus dedos
Esfolando o fole
Não deixo mole
Nem deixo parar

Sou sanfoneiro
Por um baile inteiro
Meu forró maneiro
Ninguém deixa de dançar

Á meia-noite
A poeira subindo
Me deixa alegre
Quase sem acreditar
Que o salão
Tá cheio de mulher
E o cara que quiser
Ainda pode namorar

PRESENTE AMIGO

Pai,
Quando a idade pesar nos seus ombros
Fizer a vida lhe pender pro chão
Nós vamos juntos no seu pé-de-serra
Que é pra família passear no sertão

Pai,
Quer ir na frente, apontando a estrada?
A nos guiar sem fim nesse estirão
Contando à gente as suas presepadas
Tocando a vida ainda jovem e são
(lembra, lembrar …)

Vai …
Vai relembrando as coisas mais antigas
Como a espingarda pra caçar o pão
Como o caminho a pé para o roçado
Como a sanfona pra tocar baião …

Já vamos chegar …
Cuidado pra sair, andar, descer, subir …
Eu estou aqui … estou aqui

Pai,
Continuando … as histórias não param …
Se espalham cheias de recordação
Mexendo nos sentimentos guardados
E nas muitas saudades que elas nos dão

Ai!
Às vezes lembrar lá daquela casa
Onde a parteira cortou meu cordão
Me faz pensar nosso trajeto inteiro
Do Serrote Vermelho até então

Pai,
Não por acaso eu compus estes versos
Tendo-os encaixado nesta canção
Para te dar como um presente, amigo
Com todo o amor do meu coração

E quando chegar a hora de seguir teremos que partir
Sem temer nada, meu pai, vambora.
Calma, vamos em paz!

Pai, … Eis-me aqui!

DENTRO DA NOITE

Dê mais um passo
Pule dentro da fogueira
Fecha os teus olhos e espera
Agora, abre … Abra! Abra!

Estamos indo para dentro da noite

Marque a data no seu calendário
É um dia quente e perfeito
Você não irá se arrepender
Será um grande momento

Vamos comigo para dentro da noite

Se eu lhe pareço triste
Não precisa chorar por mim
Basta me acompanhar nesse passeio
Que ficarei bem. Bom! Bom!

Eu estou dentro da noite

Num concerto dentro da noite
No perigo dentro da noite
Fugitivos dentro da noite
Todos dentro da noite
Fervendo dentro da noite

CANTURIA DA MISÉRA E DA AFRIÇÃO

Me preste atenção amigo camarada
U’a piquena históra eu vô li contá
Nós passa muitas vez u’a fome danada
Pruquê armoça e janta curcuz ou fubá

Nós só come miio, armoçamo miio
Nós jantamo miio, só cumemo miio

Num arrepare o nosso cumê
Ô xente! Isso é mermo de famia pobe
Tô pebado, aqui pás banda do sertão
Abadonado pelo resto da nação

Inda tenho a muié, tombém munto fiio
Ôtas bestêra quarqué e um fugão vazio

Fico contemprano os minino drumindo
Pu trabaio eu saio quaje sem corage
Ómeno se oiano eu inchesse o bucho
O meu esprito, chei, vortava a viage

Mas eu já tô véio pá coiêta das frô
Eu já tô tão véio. Vida miseráve!

É passá pu riba e metê os peito
Fazê zuada e porcurar nossos dereito
Tava fartando arguma coisa e isso selve
A musga p’esses home pôde do pudê

Nós quer vivê mió, só uns veve mió
Quero vivê mió, quero vivê mió

* de Pedro Osmar

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